Começando pela conclusão, porque ela muda a decisão de quem está planejando investir: o passaporte brasileiro, sozinho, não dá acesso ao visto E-2. O Brasil não aparece na tabela de Treaty Countries do Departamento de Estado dos Estados Unidos, que é a lista oficial e única que determina quem pode pedir E-1 e E-2. Conferimos a lista diretamente na fonte em 24 de setembro de 2026.
Isso contraria o que circula em boa parte do conteúdo em português sobre o assunto, inclusive uma versão anterior deste próprio artigo. Corrigimos porque escritório de imigração que erra a premissa de elegibilidade faz o cliente gastar meses e dinheiro num caminho que não existe para ele.
A regra: quem manda é a lista de Treaty Countries
O E-1 (treaty trader) e o E-2 (treaty investor) só existem para nacionais de países que mantêm com os Estados Unidos um tratado de comércio e navegação, ou um acordo bilateral de investimento, em vigor e reconhecido para esse fim. O Departamento de Estado publica a relação numa página única, a Treaty Countries, com país, classificação (E-1, E-2 ou ambas) e data de vigência.
Essa lista é o teste. Não é o passaporte, não é o valor investido, não é a qualidade do plano de negócio. Se o país não está na lista com a classificação correspondente, o consulado não emite o visto. O Brasil não está.
Por que um projeto de lei não basta: o caso de Portugal
Vale entender o mecanismo, porque é ele que explica a confusão. Um país não entra na lista porque o Congresso americano aprovou uma lei autorizando. A lei é só o primeiro passo. A própria tabela do Departamento de Estado traz, na nota sobre Portugal, a redação exata do que é preciso:
"Public Law 117-263, enacted on December 23, 2022, accorded nationals of Portugal to E-1 and E-2 status for treaty trader/treaty investor purposes if the Government of Portugal provides similar nonimmigrant status to nationals of the United States."
Repare na condicional. A lei americana é de dezembro de 2022, mas a data de vigência que aparece na linha de Portugal é 15 de março de 2024, mais de um ano depois. O intervalo é exatamente o tempo que levou para a reciprocidade ser confirmada e o país ser efetivamente incluído.
Ou seja: enquanto o país não aparece na tabela com uma data de vigência, não há visto E-2 para os nacionais dele. É por isso que citar uma data de 2019 para o Brasil não resolve nada: o que vale é a linha na tabela, e ela não existe.
O caminho que funciona: segunda nacionalidade
Aqui está a saída real, e ela é mais comum do que parece entre brasileiros. A elegibilidade ao E-2 é determinada pela nacionalidade do investidor, não pelo país onde ele mora ou onde o dinheiro foi ganho. Quem tem dupla cidadania de um país que está na lista pede o E-2 com esse passaporte, normalmente no consulado americano do país de residência.
Entre brasileiros, as cidadanias por descendência mais frequentes estão todas na lista oficial, com as seguintes datas de vigência:
- Itália: E-1 e E-2 desde 26 de julho de 1949.
- Espanha: E-1 e E-2 desde 14 de abril de 1903.
- Alemanha: E-1 e E-2 desde 14 de julho de 1956.
- Portugal: E-1 e E-2 desde 15 de março de 2024.
- Argentina: E-1 e E-2 desde 20 de dezembro de 1854.
O que o E-2 entrega, para quem tem acesso a ele
Vale conhecer o instrumento, porque ele é de fato flexível e pode ser a escolha certa para quem se qualifica por outra nacionalidade.
- Visto de não imigrante, com prazo inicial e renovações determinados pela tabela de reciprocidade do país de nacionalidade.
- Renovável de forma indefinida enquanto o negócio se mantiver operante e o investidor continuar dirigindo a empresa.
- Cônjuge entra como dependente e pode trabalhar nos Estados Unidos.
- Filhos solteiros menores de 21 anos acompanham e estudam normalmente.
- Não exige fila de Visa Bulletin, porque não é categoria de imigrante.
Quanto investir: não existe valor mínimo na lei
Esse é outro ponto em que o conteúdo em português costuma inventar número. Não há valor mínimo legal para o E-2. O Departamento de Estado exige que o investimento seja substancial e suficiente para assegurar a operação bem sucedida do empreendimento, que os recursos estejam efetivamente comprometidos e em risco, e que o negócio não seja marginal, isto é, não pode existir apenas para sustentar o investidor e a família dele.
Na prática consular, isso vira um teste de proporcionalidade entre o capital aportado e o custo real de montar e operar aquele tipo de negócio. Uma consultoria e uma indústria não são avaliadas pelo mesmo número. Qualquer tabela que apresente faixas fixas como se fossem regra oficial está descrevendo prática de mercado, não a norma.
Se o destino é o Green Card, entenda as duas esperas
Este é o erro que mais atrapalha planejamento, e ele aparece assim que o investidor decide migrar do E-2 para a residência permanente. As pessoas somam dois prazos que são independentes, ou pior, imaginam que existe só um. São dois relógios diferentes.
Espera 1: a análise da petição pelo USCIS
É o tempo que o USCIS leva para examinar e decidir a petição de imigrante, o I-140 nas categorias baseadas em emprego ou o I-526E no EB-5. Depende da carga de trabalho do centro de serviço. Nas categorias com I-140, o premium processing encurta essa espera para 15 dias úteis mediante a taxa do I-907, que é de US$ 2.965 desde 1º de março de 2026.
Espera 2: a fila do Visa Bulletin
É a disponibilidade de número de visto para a sua categoria e para o seu país de cobrança. Nada acelera essa fila. Premium processing não toca nela, honorário não toca nela, urgência do caso não toca nela. Ela anda conforme a demanda mundial e os limites anuais definidos em lei.
Quem entende as duas esperas separadas planeja certo. Com premium processing e fila current, a etapa federal do processo é curta. Sem premium e com fila travada, ela pode consumir anos. São variáveis diferentes e se controlam de formas diferentes.
As rotas permanentes para o investidor brasileiro
Como o E-2 está fora de alcance para quem tem só o passaporte brasileiro, faz sentido olhar diretamente para o que dá residência permanente. Em vários perfis, isso é uma melhora e não um consolo: o E-2 nunca vira Green Card sozinho, por mais renovações que acumule.
- 1EB-5, Green Card por investimento. É a rota direta de capital. Os valores vigentes até 31 de dezembro de 2026 são de US$ 800.000 em área de emprego alvo, incluindo rural e alto desemprego, e US$ 1.050.000 no padrão. O primeiro reajuste por inflação está previsto para 1º de janeiro de 2027, por força do EB-5 Reform and Integrity Act de 2022, e protocolar antes trava o valor vigente. Detalhes no guia do EB-5 em 2026.
- 2EB-2 NIW, dispensa do interesse nacional. Não exige empregador nem investimento. O empreendedor autopeticiona com base no mérito e no impacto do próprio empreendimento. Tem se mostrado a rota mais eficiente para fundador com resultado comprovado. Veja o guia do EB-2 NIW.
- 3EB-1A, habilidade extraordinária. Exigente, porém sem fila e sem empregador. Cabe ao empresário com reconhecimento consolidado no setor. Entenda o critério real no artigo sobre o EB-1A.
A comparação direta entre a lógica do visto temporário de investidor e a do Green Card por investimento está detalhada em E-2 vs EB-5.
Custos: apenas taxas oficiais verificadas
Os valores abaixo são taxas de governo, conferidas nas fontes primárias. Não incluem honorários, plano de negócio, contabilidade nem custo de montagem do empreendimento.
- Taxa consular do visto E (treaty trader e treaty investor): US$ 315 por pessoa, conforme a tabela Fees for Visa Services do Departamento de Estado. É a categoria mais cara entre os vistos de não imigrante.
- DS-260, processamento de visto de imigrante em caso baseado em emprego: US$ 345 por pessoa.
- USCIS Immigrant Fee, paga após a aprovação do visto e antes da viagem: US$ 235 por pessoa.
- I-140, petição de imigrante nas categorias baseadas em emprego: US$ 715 em papel e US$ 665 on-line.
- I-485, ajuste de status dentro dos Estados Unidos: US$ 1.440 por pessoa.
- I-907, premium processing: US$ 2.965, em vigor desde 1º de março de 2026.
Armadilhas que aparecem nessa conversa
- Conteúdo que afirma que o Brasil é país de tratado. Confira você mesmo na tabela Treaty Countries antes de contratar qualquer serviço baseado nessa premissa.
- Promessa de E-2 via empresa aberta nos Estados Unidos. Abrir uma LLC americana não muda a sua nacionalidade nem cria elegibilidade.
- Capital aportado por terceiro. Os recursos precisam ser do investidor e a origem lícita precisa ser rastreável.
- Tratar o E-2 como Green Card. Ele não concede residência permanente e não se converte sozinho, independentemente de quantas renovações forem obtidas.
- Comprar negócio sem due diligence. A operação precisa sobreviver ao segundo ano, ou a renovação fica comprometida.
Perguntas frequentes
Brasileiro pode tirar visto E-2?
Com apenas a nacionalidade brasileira, não. O Brasil não consta na tabela de Treaty Countries do Departamento de Estado, que é a lista que define quem pode solicitar E-1 e E-2. Verificamos a lista na fonte oficial em 24 de setembro de 2026. Quem possui uma segunda nacionalidade de país que está na lista, como Itália, Portugal, Espanha, Alemanha ou Argentina, solicita o E-2 com esse passaporte normalmente.
Existe tratado E-2 entre Brasil e Estados Unidos?
Não há tratado em vigor reconhecido para fins de E-1 e E-2 entre Brasil e Estados Unidos. O teste prático é objetivo: se o país aparecesse na tabela Treaty Countries, teria uma linha com a classificação e a data de vigência, como acontece com Portugal, cuja linha registra 15 de março de 2024. O Brasil não tem essa linha.
Uma lei aprovada no Congresso americano já não resolveu isso?
Uma lei autorizando é apenas o primeiro passo. O caso de Portugal mostra o mecanismo inteiro: a Public Law 117-263 é de 23 de dezembro de 2022 e condicionou o benefício à reciprocidade portuguesa, e a data de vigência que consta na tabela oficial é 15 de março de 2024. Enquanto a linha não existe na tabela com uma data, o consulado não emite o visto.
Qual o valor mínimo de investimento no E-2?
Não existe valor mínimo na lei nem no regulamento. O Departamento de Estado exige investimento substancial e suficiente para assegurar a operação bem sucedida do negócio, com recursos comprometidos e em risco, e veda o empreendimento marginal. A avaliação é de proporcionalidade entre o capital e o custo real daquele tipo de negócio, o que muda de caso para caso. Faixas de valores publicadas por consultorias descrevem prática de mercado, não norma oficial.
O E-2 dá Green Card?
Não. O E-2 é visto de não imigrante e não se converte em residência permanente por tempo de permanência ou por número de renovações. Para o Green Card é preciso uma petição de imigrante própria, como EB-5, EB-2 NIW ou EB-1A. Quem pretende residência permanente deve estruturar essa rota desde o início, e não depois de anos acumulando renovações.
Quanto custa o visto E-2 em taxas oficiais?
A taxa consular da categoria E, que cobre treaty trader e treaty investor, é de US$ 315 por pessoa, conforme a tabela Fees for Visa Services do Departamento de Estado. É a taxa mais alta entre as categorias de não imigrante, acima dos US$ 205 das categorias baseadas em petição e dos US$ 185 das não baseadas em petição. Esse valor não inclui honorários, plano de negócio nem o custo de montar a operação.
Se eu não tenho segunda cidadania, qual é a melhor rota para investir e morar nos Estados Unidos?
Depende do perfil e do objetivo. Se o objetivo é residência permanente por capital, o EB-5 é a rota direta, com US$ 800.000 em área de emprego alvo ou US$ 1.050.000 no padrão até 31 de dezembro de 2026. Se o que existe é trajetória empresarial com resultado comprovado, o EB-2 NIW dispensa empregador e investimento. Se o reconhecimento no setor é consolidado, o EB-1A é a rota mais rápida. As três dão Green Card, o que o E-2 não dá em nenhuma hipótese.
Fontes oficiais



